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Apresentação
Na produção sócio-antropológica, o
turismo sexual é considerado uma expressão das desigualdades
que permeiam a “nova ordem global” (Appadurai
1996). Nesse debate há uma convergência em considerar
que o turismo sexual outorga visibilidade às relações
entre Norte e Sul, entre privilégios e opressões,
pondo em evidência o papel da supremacia masculina (Seabruck
2001, Skrobanek 2001). Do meu ponto
de vista, porém, o turismo sexual apresenta aspectos intrigantes
em termos de gênero, particularmente no que se refere à
articulação entre gênero e sexualidade, quando
se levam em conta as alterações na geografia dessa
problemática.
Estudos sobre a problemática realizados em diversas partes
do mundo mostram que essa noção de supremacia masculina
engloba diversos estilos de masculinidade (Cohen
1986, O’Connell Davidson 1996,
Kempadoo 1999). Ao mesmo tempo, os sites
da Web voltados para viajantes heterossexuais à procura
de sexo permitem perceber que os diversos países neles listados
são vinculados a caracterizações diferenciadas
em termos de sexualidade e de feminilidade. Esses espaços
virtuais mostram que os destinos privilegiados pelos turistas sexuais
são definidos não apenas em função da
possibilidade de sexo barato, mas também por construções
de gênero e de estilos de sensualidade vinculados a certas
regiões e a certas nações (Piscitelli
2003). E a valorização desses lugares altera-se
ao longo do tempo. Nos circuitos mundiais de turismo sexual, locais
que há décadas são alvo dos viajantes à
procura de sexo vêm perdendo valor no mercado transnacional
de sexo. Paralelamente, novas regiões, como o Nordeste do
Brasil, tornam-se almejados destinos (Piscitelli
2003/a). No marco desse deslocamento de preferências,
dessa diversidade e, ao mesmo tempo, das especificidades alocadas
a regiões e países cabe perguntar-se como as relações
entre estilos de masculinidade, feminilidade e sexualidade fazem
parte desse processo de mutação na geografia do turismo
sexual internacional.
Neste texto procuro oferecer elementos para responder essa indagação,
explorando como o Nordeste do Brasil se insere na expansão
desses circuitos. Meu argumento central é que, embora fatores
econômicos estejam intimamente vinculados ao desenvolvimento
do turismo sexual, os aspectos políticos e culturais, permeados
por gênero, são fundamentais para a compreensão
da alteração nesses circuitos mundiais. Desenvolvo
esse argumento levando em conta as conceitualizações
de estrangeiros à procura de sexo e de “nativas”
que com eles se relacionam, no marco de uma modalidade de turismo
sexual que tem lugar em Fortaleza, capital do Estado do Ceará,
no Nordeste do Brasil. Trata-se de um estilo de turismo sexual (1),
denominado por alguns locais “turismo sexual de classe média”,
através do qual visitantes de diversos países se relacionam
com mulheres originárias de diversos estados do Nordeste
do Brasil.
Nas primeiras partes deste texto discuto a maneira como o turismo
sexual é definido nas discussões sobre essa problemática
e apresento as características do universo pesquisado. Levando
em conta as conceitualizações forâneas e nativas
sobre essas viagens, reflito depois sobre as interconexões
entre gênero, nacionalidade, classe e cor presentes nesse
contexto. Finalmente, retomo as questões iniciais, pensando
como essas interconexões permeiam a inclusão do Nordeste
do Brasil nos circuitos mundiais de turismo sexual.
Conceitualizando o turismo sexual
A partir do início da década de 1990, a intensificação
do turismo internacional, vinculada à chegada de vôos
diretos, tornou mais visível a prostituição
voltada para estrangeiros no Nordeste do Brasil. Nesses anos, chegou-se
à conclusão de que essa região tinha sido integrada
no circuito mundial de turismo sexual (Piscitelli
1996). Assim, o Brasil começou a ser considerado um dos
países da América Latina, Caribe e África que,
nas décadas de 80 e 90, se tornaram novos alvos para os turistas
sexuais.
Os esforços para compreender o turismo sexual originaram
um corpo de conhecimentos que apresenta uma pluralidade de abordagens.
Parte desses estudos tem como referência o trabalho pioneiro
de Truong (1990), no qual o turismo sexual é vinculado às
relações entre homens de países ricos e nativas
de nações pobres e à prostituição
e considerado resultado de uma série de relações
sociais desiguais, incluindo relações entre Norte
e Sul, capital e trabalho, produção e reprodução,
homens e mulheres. Essa concepção sobre turismo sexual
é corrente na bibliografia sobre o tema, na qual o turismo
sexual é freqüentemente vinculado a viagens organizadas,
destinadas a um público masculino entre 35-50 anos, sempre
no sentido “centro-periferia” (Leheny
1995, Richter 1994, Pettman
1997, Chame 1998, Carpazoo
1994, Dias Filho 1998).
No transcurso da década de 1990, diversos estudos foram
alargando o campo de discussões, chamando a atenção
para a extrema diversidade presente no universo do que é
considerado turismo sexual. Essa diversidade se expressa na existência
de várias modalidades desse tipo de turismo (Mullings
1999, Hall 1994); em significativas distinções
entre turistas, homens (O’Connell Davidson
1996, 2000, Seabruck
1996) e mulheres (du Cros e du Cros 2003, Sanchez
Taylor 2000, O’Connell Davidson e Sanchez
Taylor 1999, Oppermann 1999, Phillips
1999, Dahles e Bras 1999, Pruitt
e LaFont 1995, Meisch 1995), e no amplo
leque de relacionamentos estabelecidos entre estrangeiros/as e nativos/as,
envolvendo tanto contatos múltiplos, anônimos e imediatamente
remunerados, como ligações duradouras e atravessadas
por emoções românticas que, embora não
excluam o interesse econômico, não incorporam pagamento
monetário direto (Cohen 2003, Ryan
2000).
As análises considerando esse leque de diferenças
vêm desestabilizando vários supostos generalizantes
sobre o turismo sexual. A idéia de que o turismo sexual envolve
homens do Primeiro Mundo, geralmente velhos, viajando aos países
em desenvolvimento à procura de prazeres sexuais não
disponíveis, pelo menos pelo mesmo preço, em seus
países torna-se mais complexa através da contraposição
com modalidades, em diversos países da África e do
Caribe, nas quais as mulheres do Primeiro Mundo à procura
de sexo superam os homens. A presença maciça de turistas
sexuais viajando, em várias partes do mundo, de maneira isolada
e autônoma (Kempadoo 1999) é
um elemento a partir do qual se discute o suposto de que o turismo
sexual envolve, basicamente, pacotes turísticos organizados.
O ponto mais importante, porém, é que essas pesquisas
contestam a adequação da idéia de prostituição,
concebida em termos de serviços sexuais remunerados, indiscriminados
e emocionalmente neutros, para compreender o conjunto de relações
que surgem desses encontros sexuais entre turistas e locais. Assim,
a associação linear entre turismo sexual e prostituição
vem sendo contestada por aproximações que consideram
o turismo sexual como turismo voltado para a procura de sexo, no
qual algumas modalidades poderiam ser consideradas parte da prostituição,
enquanto outras não poderiam ser nela englobadas (Opperman
1999, Ryan 2000). Compartilhando esta abordagem,
neste texto penso nas concepções acionadas no “turismo
sexual de classe média”, em Fortaleza, considerando
turistas sexuais (internacionais) aqueles estrangeiros viajando
a procura de sexo.
A “prostituição
chique” da Praia de Iracema
Essas reflexões se baseiam nos resultados de uma pesquisa
qualitativa, desenvolvida em uma abordagem antropológica.
Os dados, colhidos durante um trabalho de campo realizado durante
9 meses, entre outubro de 1999 e agosto de 2002, foram obtidos através
de observação, entrevistas “itinerantes”,
acompanhando o percurso dos/as agentes envolvidos, entrevistas grupais
e individuais, em profundidade, e diversos tipos de fontes. Parte
importante do trabalho de campo consistiu em acompanhar o trânsito
de turistas internacionais e mulheres locais pelos circuitos de
circulação vinculados a esse estilo de turismo sexual.
São espaços turísticos nos quais convivem visitantes
estrangeiros e brasileiros, camadas médias locais, e jovens
mulheres de setores mais baixos, algumas das quais realizam “programas”
(2) . A informação
gerada pela observação foi suplementada por entrevistas
com mulheres que mantêm relacionamentos amoroso-sexuais com
estrangeiros; com turistas à procura de sexo de diversas
nacionalidades e com estrangeiros que, fascinados pela sua experiência
como turistas, fixaram residência na cidade. Realizei, também,
entrevistas com diversos agentes envolvidos com turismo internacional
e/ou prostituição (3)
e obtive dados secundários de agências do governo,
instituições educacionais e ONGs. Essas fontes possibilitaram
situar a pesquisa num marco de informações que relativiza
a intensidade do fluxo de turistas internacionais na cidade (4)
e o peso absoluto a eles concedido, no passado, na incidência
da prostituição infantil em Fortaleza. (5)
Ao falarem em “turismo sexual de classe média”
os cearenses aludem a distinções entre modalidades
de prostituição voltadas para os estrangeiros. O universo
feminino que participa dessa modalidade de turismo sexual está
integrado por mulheres que compartilham, entre si, certas características.
Moram em setores de camadas médias, camadas médias
baixas e, inclusive, pobres, mas não necessariamente miseráveis
e têm um grau de escolaridade comparativamente mais elevado
que o de mulheres envolvidas em níveis “inferiores”
de prostituição.
Tratando cuidadosamente da “aparência”, essas
mulheres, várias das quais estão na casa dos 20 anos,
exibem corpos esguios. Elas apreciam perfumes importados e usam
roupas à moda, ocasionalmente de grifes estrangeiras, e relativamente
discretas; concedem cuidados especiais à pele e aos cabelos.
Esses cuidados são expressões de uma produção
corporal voltada para os critérios de seleção
atribuídos aos visitantes internacionais. Mas, eles visam
a estabelecer também distâncias em relação
às imagens tradicionais da prostituição local,
que tendem a vinculá-la com aquela de menor “nível”.
O efeito dessa produção corporal é uma relativa
indistinção entre essas garotas e outras, de camadas
mais elevadas e desvinculadas da prostituição, que
por ali transitam. Essa relativa indefinição integra-se
numa série de marcas que dotam as aproximações
entre essas garotas e os visitantes internacionais de um caráter
particular. Diferentemente da sexualização explícita
e do caráter definido presente em diversas modalidades de
prostituição, em Fortaleza, os encontros, carregados
de sensualidade, entre turistas estrangeiros e essas nativas estão
perpassados por indefinições.
Na maior parte dos espaços “misturados” da Praia
de Iracema (no sentido em que neles convivem pessoas envolvidas
na prostituição com outras que não estão
a ela vinculados), as aproximações adquirem as características
de um flirt. Aos estrangeiros tende a caber a conquista. Esse estilo
de aproximação, remetendo a padrões tradicionais
de cortejo, é significativo. A essa dinâmica de aproximação
soma-se o fato de algumas garotas só explicitarem sua expectativa
de pagamento após terem passado a noite com os estrangeiros
(e não antes) e de outras nunca fazê-lo diretamente.
Por outra parte, os relacionamentos que extrapolam a duração
atribuída a um programa são correntes.
Por outro lado, as práticas de cortejo e namoro desenvolvidas
por alguns visitantes internacionais à procura de sexo os
diferencia dos “clientes” e, inclusive, dos namorados
locais. Narrando histórias nas quais a fidelidade durante
a estadia, as lágrimas e a intensidade dos contatos após
a partida adquirem o estatuto de medida do grau de amor envolvido,
uma garçonete de 25 anos, descreve as aproximações
de um namorado estrangeiro:
Todas as noites me esperava, sentava
na minha mesa. Mandava rosa para mim no meio da noite. Tão
bom!... E aí... você vai se apegando mais...
Nesses circuitos os visitantes estrangeiros percorrem roteiros
específicos na busca de mulheres. E, pelo menos parte dessa
procura adquire um certo grau de ocasionalidade. Embora esteja direcionada
para garotas consideradas “de programa” pelos cearenses,
ela integra um leque vasto de nativas. Nesses espaços encontrei
jovens que realizam “programas” com estrangeiros à
maneira daqueles destinados à clientela local, isto é,
com tarifas, durações e, inclusive, práticas
sexuais previamente acordadas. Achei, também, garotas subsistindo
na base de “programas” com estrangeiros, com os quais
mantêm relações muitas vezes duradouras, envolvendo
pagamentos cujo valor não é fixo. As palavras de uma
mulher de 24 anos aludem simultaneamente à elasticidade desses
“programas”, e à fundamental importância
da troca monetária nessas relações.
Só gosto de gringo... Have
money! Muito simpáticos, românticos, sei lá,
é diferente... Quando eu vejo um homem que seja pão
duro, é rabiscado na mesma hora... Esses homens vão
e voltam... Se não aproveitar, aí tchau... Saí
com um português. Ele era bom... Me deu 450 dólares
para passar quatro dias com ele, em Jericoacoara. Ainda me deu um
banho de loja, no shopping. Esse homem foi incrível... Comprou
umas coisas para meus meninos... gastou uns 800 paus... E eu passei
esses dias só na maravilha, lá, curtindo praia, comendo
do bom e do melhor, andando de bugre... Só mordomia.
Em alguns casos, essas garotas combinam os programas com
algum ingresso mais estável enviado desde o exterior, mediante
ordens de pagamento internacionais, por namorados fixos,
às vezes casados, que as visitam eventualmente.
Nos espaços vinculados a esse estilo de turismo sexual encontrei,
também, meninas com empregos fixos e baixos salários,
que delimitam diferenças entre elas e as “moças
de programa”. Elas aceitam e, ocasionalmente, procuram presentes
e contribuições financeiras a médio e longo
prazo. Deparei-me, ainda, com jovens que saem exclusivamente com
estrangeiros, mas não têm qualquer expectativa com
relação a dinheiro ou presentes. Elas aspiram penetrar
no mundo acessível aos turistas, compartilhando passeios,
restaurantes, hotéis.
Nesses circuitos achei, também, mulheres de camadas médias,
com elevado nível de instrução e, inclusive,
profissionais liberais, na faixa dos 30, 40 e 50 anos, que se ressentem
das características de um mercado matrimonial por elas percebido
como extremamente desigual, pela saturação de mulheres
e pelo fato de os homens terem amplo acesso a mulheres 20, até
30 anos mais novas. Entrevistei algumas freqüentadoras da Praia
de Iracema com essas características. São mulheres
desvinculadas da prostituição que procuram relacionar-se
exclusivamente com visitantes internacionais.
O romantismo perpassa os relatos de mulheres de diversas camadas
sociais. Mas, nas histórias das entrevistadas de camadas
inferiores, a idealização dos estrangeiros muitas
vezes convive com a esperança de viver fora do Brasil. Entre
essas últimas circula uma narrativa que, minimizando os maus
tratos e escravidão aos quais são submetidas algumas
brasileiras no exterior, sublinha namoros e casamentos bem-sucedidos,
com particular destaque para a aquisição de apartamentos,
bares ou restaurantes, que expressam uma nítida ascensão
social. Os países almejados variam, mas, essas meninas, versadas
em questões ligadas às viagens internacionais, freqüentando
o café-internet para receber as mensagens dos namorados distantes,
e atualizando, através de tradutores, a velha tradição
dos analfabetos procurarem escrevinhadores, sonham com um futuro
melhor, sobretudo, na Europa.
Nos espaços associados a essa modalidade de turismo sexual
há uma heterogeneidade análoga no que se refere aos
estrangeiros. Entre eles há homens de diferentes nacionalidades,
regiões, idades, profissões, níveis de renda
(6), escolaridade, estado civil
e graus de conhecimento da cidade. O tempo de permanência
desses turistas na cidade e o tipo de hospedagem escolhido são
variados. Esses entrevistados descobriram Fortaleza de diversas
maneiras. Alguns foram orientados por referências casuais
e/ou pelas informações oferecidas nos sites da Internet.
A propaganda boca a boca também é um fator importante
no recrutamento de novos turistas à procura de sexo. Essa
circulação de informação conflui com
o incremento de vôos entre cidades estrangeiras e Fortaleza
e de pacotes com baixo preço, fato que incide de maneira
crucial no aumento dos visitantes internacionais na cidade. Mas,
idades, origem nacional e “níveis” de renda e
escolaridade não mantêm relações lineares
com o estilo de mulheres escolhidas, nem com o tipo de relacionamentos
com elas estabelecidas.
As garotas pobres que namoram exclusivamente estrangeiros realizam
distinções entre aqueles que circulam nos circuitos
vinculados ao “turismo sexual de classe média”.
Elas preferem os turistas “novos”, visitando pela primeira
vez o Brasil. Os visitantes “habitués” e os residentes
transitando e, ocasionalmente, saindo, com meninas que fazem “programa”
são os entrevistados que manifestam uma percepção
mais nítida do caráter desses relacionamentos. Essa
particularidade soma-se a outro aspecto, crucial no estabelecimento
das diferenciações por elas realizadas entre os visitantes
internacionais. Segundo uma garçonete:
Sabe, tem homens que vêm para
cá, só atrás de aventura, entende? Só
de trocar de mulher todas as noites. Mas, esses já que arranjei,
vêm mais atrás de carinho, mais atrás de atenção...
Os entrevistados invariavelmente afirmam não recorrer a
prostitutas em seus países de origem. Entre eles, vários
estão longe de pretender estabelecer relacionamentos duradouros
com as nativas. Para alguns desses viajantes, o estilo de turismo
escolhido faz parte da estratégia para evitar esses relacionamentos
nos locais visitados e também nos países de origem.
De acordo com um consultor financeiro estadounidense, divorciado:
I don’t want to get back into
a relationship… In America, typically, if you go out with
a woman, on a first date, you kiss her, after like the third date,
you generally are sleeping with her and if you start sleeping with
her, she expects you will see her only. And so then she wants to
see you all the time and so you have to very selective when you
start going out with people… I just avoided it all together.
My idea is having fun …
Alguns desses homens procuram serviços sexuais com inúmeras
mulheres, tentando controlar os valores pagos. Outros se recusam
inteiramente a pagar encontros sexuais. Finalmente, outros, guiados
por um certo critério ético, sentem-se mais justos
pagando “bem” por sexo. Nos termos do consultor financeiro:
Here you’re getting so much.
I mean, in terms of a relationship, and it’s kind of selfish
on your part unless you want to give them something back. And you
can’t give them what they probably want, a long term relationship,
so, you try to give them something. I feel better about paying,
than somebody who picks up a girl and use her for a week and take
off.
Nesse universo alguns entre os visitantes “atrás de
atenção”, são homens dotados de escasso
valor no mercado sexual/amoroso/matrimonial de seus respectivos
países, que procuram estabelecer relacionamentos duradouros
com “nativas”, inclusive com garotas que fazem “programas”.
Há outros que, evitando mulheres percebidas como “de
programa”, procuram garotas de camadas baixas, utilizando
o trabalho como indicador do não envolvimento com a prostituição.
Eles escolhem meninas pobres, percebidas como “simples”
e “autênticas”, supostamente não maculadas
pela participação no mercado do sexo.
Nesse contexto, os argumentos através dos quais essas garotas
e os estrangeiros que com elas se relacionam explicam suas escolhas
mútuas adquirem importância. Essas formulações
possibilitam o acesso aos procedimentos por meio dos quais esses
agentes acionam as categorias de diferenciação permeando
a escolha de parceiros/as, permitindo vislumbrar os aspectos que
atraem os visitantes internacionais para o Nordeste do Brasil e
aqueles que tornam esses turistas desejáveis aos olhos das
jovens locais.
Gênero, nacionalidade
Os estrangeiros entrevistados coincidem em considerar temperamento
cálido e espírito aberto, simpatia, alegria e descontração
traços específicos que marcam o caráter brasileiro,
distinguindo-o daquele atribuído a outros países.
Nessas relações, a apreciação dos atributos
marcando o Brasil é aparentemente positiva. No entanto, cada
elemento positivo torna-se, também, parte de uma análise
negativa: a alegria brasileira adquire conotações
de imprevidência e irresponsabilidade, a maleabilidade e paciência
atribuídas à população nativa são
associadas à passividade e indolência. Ao contrário,
os países da Europa e seus habitantes são considerados
frios e individualistas. Mas esses países são tingidos,
também, por atributos positivamente avaliados que remetem,
sobretudo, à idéia de racionalidade, organização
legal e planejamento para o futuro, inexistentes no Brasil.
Estou querendo destacar que essas relações entre
nacionalidades estão permeadas por ambivalências. E
é importante considerar a relevância adquirida pelas
ambivalências na perpetuação dos estereótipos.
Refiro-me às reflexões de Homi Bhabha (1994).
Analisando o discurso colonial, esse autor assinala que os estereótipos
são a principal estratégia discursiva para outorgar
um caráter fixo ao “outro”. Eles adquirem força,
precisamente, através dos jogos de ambivalências que
articulam crenças múltiplas, misturadas e divididas
numa corrente de significação. Essas ambivalências
permeiam a sexualização da qual o Brasil é
objeto.
Nesse universo, as distinções entre países
e entre nacionalidades são atravessadas por gênero.
Elas são enunciadas estabelecendo relações
entre masculinidades e entre feminilidades, nativas e forâneas.
Do ponto de vista desses entrevistados, os atributos alocados ao
Brasil, corporificados no sangue, marcam a masculinidade nativa
com um temperamento explosivo e perigoso, em contraposição
ao sangue “frio” dos europeus. Nessas visões,
os estilos de ser homens nativos, associados a uma certa indolência,
à propensão a um consumo excessivo de álcool
e à “burrice” se expressa num temperamento belicoso
e, sobretudo, na atribuição de uma sexualidade exacerbada,
primária e pouco elaborada.
As masculinidades européias, ao contrário, são
apresentadas como evidenciando sinais de romantismo e delicadeza.
Os estrangeiros entrevistados insistem, também, em destacar
a dedicação ao trabalho e a valorização
da responsabilidade em relação à família,
particularmente, da paternidade, como elementos centrais na constituição
das masculinidades positivamente avaliadas. Nesses pontos, essas
noções de masculinidade reiteram as presentes em outros
contextos (ocidentais) (Vale de Almeida 1995).
Mas, é importante não perder de vista que essas formulações
se integram em relações entre masculinidades européias
e brasileiras, nas quais estas últimas são invariavelmente
inferiorizadas.
No que se refere aos estilos de sexualidade, não há,
necessariamente, convergências entre esses entrevistados.
Mas, eles tendem a convergir nas alusões à propensão
a estabelecer relacionamentos igualitários com (todas) as
mulheres, oferecendo a elas carinho e a oportunidade de gozar, sublinhando
sua capacidade de “amizade” intersexual, orgulhando-se,
também, da maneira como encaram as tarefas domésticas,
inclusive nos relacionamentos com as “namoradas” das
férias. Num jogo no qual nenhum traço de personalidade
e/ou temperamento escapa à relação entre nacionalidades,
diferentes tipos de turistas sexuais, “atrás de aventura”
e “atrás de atenção”, contrapõem
umas e outras características ao “machismo”,
considerado aspecto distintivo da masculinidade local.
As percepções dos estrangeiros entrevistados mostram
uma valorização aparentemente positiva das mulheres
locais. Os traços vinculados à feminilidade nativa
são delineados por meio do contraste com aqueles associados
às mulheres dos respectivos países de origem dos entrevistados.
A acessibilidade e “calidez” do temperamento das brasileiras
são, assim, contrastados com a arrogância atribuída
às alemãs, o “fechamento” das portuguesas
e a auto-apreciação exageradamente positiva das inglesas,
a frialdade, o espírito calculador e a altivez das italianas.
Na percepção desses estrangeiros as feminilidades
das mulheres do Norte estão marcadas por um elevado grau
de masculinização. Tratar-se-ia de mulheres independentes
que, priorizando o sucesso profissional, a carreira, o dinheiro
e, inclusive, consumindo sexo pago e/ou exótico, são
percebidas como agindo à maneira de homens. Nas impressões
dos entrevistados dos países mais ricos, o temperamento carinhoso,
a calidez, simplicidade e submissão das nativas, integram-se
numa idéia de feminilidade que, revestida de traços
de “autenticidade”, remete a uma submissão considerada
desaparecida na Europa: “A mulher aqui ainda é mulher,
mais carinhosa”, diz um turista italiano. Nos termos de um
residente holandês:
A mulher brasileira... quer dar prazer!
. Ela quer fazer boa comida... Quando o homem está contente,
ela está contente. Essa é a diferença com as
européias, e isso atrai muito os homens.
Mas, as leituras, aparentemente positivas, dessas feminilidades,
convivem com a sexualização e a inferiorização
das garotas. As maneiras locais de ser mulher são percebidas
como marcadas por uma sensualidade singular que se expressa corporalmente.
A sensualidade é vinculada a um temperamento percebido como
ardente, evidente entre prostitutas e também entre mulheres
que, aparentemente, não fazem “programas”, que
singulariza as nativas distinguido-as das mulheres disponíveis
em outros destinos de turismo sexual. De acordo com o consultor
financeiro estadounidense:
Here, a lot of the girls, if you
say… well I don’t want to spend money, they say, oh,
no money, don’t worry about it…. They just want to have
fun. So they like it. For them it is Ok. I was very surprised. It
is this physical enjoyment, this passion that the Brazilians have.
It doesn’t happen in other countries…
Essa sensualidade é revestida de simplicidade. Ela é
também associada à falta de inteligência: “Só
pensam em namorar e dançar forró” afirma um
residente italiano, aposentado, de 60 anos, dando-me como exemplo
a amiga, “muito jovem e muito ciumenta” que mora na
casa dele. Desenhando com as mãos acentuadas curvas femininas
que balançam de um lado ao outro, adiciona, estabelecendo
uma relação causal:
Falta cérebro, não
consegue aprender, paguei a escola para ela durante dois anos, mas
não sabe nem a tabuada.
E a “fogosidade” é ligada à propensão
para modalidades (mais ou menos) abertas de prostituição.
Na leitura desses estrangeiros, precisamente, sensualidade, impressionante
disposição para o sexo e simplicidade são atributos
que dotam de características específicas o mercado
de sexo local. Na confluência entre esses atributos, os visitantes
à procura de sexo constroem as razões que os levam
a incluir Fortaleza em seus roteiros de férias.
Parte importante desses visitantes, particularmente os europeus,
escolheu a cidade após ter percorrido conhecidos pontos do
circuito internacional de turismo sexual. Na perspectiva criada
pela comparação entre esses lugares e Fortaleza, alguns
destacam a particularidade que, segundo eles, marca a cidade, sintetizada
pela idéia de uma prostituição difusa. A singularidade
de Fortaleza estaria situada no encontro entre a ausência
de equipamentos vinculados a um maior grau de organização
da prostituição e o caráter lúdico que
marca os encontros entre estrangeiros e nativas. Na leitura desses
turistas, essa confluência é viabilizada pelo temperamento
nativo, cuja intensa disposição para o sexo torna
dispensável uma organização mais eficiente.
E, por sua vez, o clima difuso que perpassa parte substantiva desses
encontros cria uma ilusão de “normalidade” que
possibilita aos visitantes não necessariamente se perceberem
como clientes.
A peculiar atração (erótica) mediando esses
encontros transnacionais é perpassada, também, por
outras diferenciações. A idade é uma delas.
Os entrevistados apreciam o acesso à sensualidade nativa
corporificada em mulheres muito jovens. Nos termos de um residente
italiano: “No Brasil, não há homem velho. Mulher,
sim”. Esses estrangeiros mostram, também, certa percepção
das diferenças de classe locais, lidas através da
distância afetivo/sexual estabelecida pelas mulheres das camadas
sociais mais elevadas em relação a eles. Apenas as
mulheres desses grupos sociais parecem, ocasionalmente, escapar
do jogo de inferiorização que, intimamente vinculado
à localização estrutural dos respectivos países
nas relações transnacionais, afeta as nativas das
camadas baixas e dos setores menos favorecidos das camadas médias.
Observo que, nesse contexto, a localização se torna
fundamental para a compreensão de como operam as diferenciações
que confluem na inferiorização dessas brasileiras.
Alguns desses estrangeiros estão situados, em seus respectivos
países, em camadas sociais análogas às das
jovens com as quais se relacionam em Fortaleza. De acordo com uma
mulher que faz “programas” na Praia de Iracema:
Uma vez fiquei com um cara, eu nem
sabia... um fruteiro, minha filha, vendedor de fruta... Era lindo,
era uma postal de homem. Um fruteiro aqui vai ter a educação
que aquele homem tinha mulher? É muito diferente... Um homem
de sapato bom, a roupa boa, e bonito, lindo, a pele muito boa. E
os pedreiros de lá, os pedreiros!
No universo de nativas que se engajam em relacionamentos amoroso/sexuais
com visitantes internacionais reitera-se o procedimento de delinear
masculinidades e feminilidades contrastando noções
associadas às maneiras de ser homem e mulher alocadas aos
diferentes países. Estabelecendo relações entre
construções de gênero e nacionalidades, entrevistadas
de diferentes camadas sociais, vinculadas ou não à
prostituição, inferiorizam as masculinidades locais
associando os atributos mais valorizados às maneiras de ser
homem dos estrangeiros. A percepção das masculinidades
nativas está, aliás, imersa numa permanente oposição
“dentro”/”fora”, constantemente redefinida.
Nesse universo, essa oposição aponta para relações
onde as concepções sobre o “local” se
definem, ora em relação ao “estrangeiro”
de outras nacionalidades, ora em relação aos forasteiros
nacionais e, nesses casos, o (rico) Sudeste do Brasil, reiterando
em escala nacional uma valorização vinculada à
localização, ocupa o privilegiado lugar do “fora”.
Nessas relações, os estilos de masculinidade local,
invariavelmente considerados “machistas”, são
percebidos como marcados por traços de intensa possessão,
agressividade, distanciamento afetivo, falta de respeito e infidelidade.
A atribuição desses traços distintivos aos
nativos é implementada pelas entrevistadas para explicar
a escolha dos homens “de fora”. E, ao contrário,
os forasteiros, particularmente os estrangeiros, aparecem corporificando
estilos de masculinidade vinculados a uma certa “abertura”
e um maior grau de igualitarismo. Essas qualidades, vinculadas a
diversas nacionalidades européias, são apresentadas
como se integrando em maneiras de ser homem que aparecem marcadas
por romantismo, delicadeza e cuidados.
Nessas relações entre masculinidades, as maneiras
de ser homem positivamente avaliadas estão necessariamente
associadas a um certo padrão social. Nesse sentido, o tipo
de emprego integra-se num conjunto mais amplo de indicadores que,
combinando país de residência, posses e disposição
para gastar o dinheiro, inclusive pagando viagens ao exterior, estão
associados aos estilos de masculinidade melhor considerados. Nessas
relações, outras diferenciações estão
longe de operar de maneira estável. A idade, indiferente,
para algumas entrevistadas, é, ao contrário, um aspecto
relevante nas preferências de outras, particularmente no caso
das mais apreciadas dos estrangeiros.
No marco dessas distinções, os estilos de sexualidade
associados às diversas maneiras de ser homem adquirem significados
particulares. Numa valorização que mostra relativa
autonomia em relação ao “desempenho” sexual,
as percepções dessas entrevistadas apontam para relações
nas quais os estilos de sexualidade vinculados às masculinidades
positivamente avaliadas revelam, sobretudo, cuidado, companheirismo
e generosidade. Esses atributos podem estar alocados a uma ou outra
nacionalidade. Mas, em relações que tornam evidente
a crucial importância da intersecção entre gênero
e nacionalidade, nas conceitualizações das garotas
pobres que namoram estrangeiros, elas tendem a ser aquelas dos visitantes
dos países do Norte.
As relações entre feminilidades estabelecidas pelas
entrevistadas reiteram atributos presentes na apreciação
dos estrangeiros. Nessas leituras, as feminilidades européias
aparecem como marcadas pela autonomia e, de maneira análoga
ao “clima” associado aos respectivos países,
pela “frieza”. Opondo-se a esses estilos de feminilidade,
as maneiras de ser mulher brasileira aparecem marcadas pelas qualidades
que os visitantes internacionais lhes atribuem. O temperamento carinhoso
faz parte desses atributos, associados, por algumas entrevistadas,
à idéia de dependência, baseada na necessidade
econômica. As reflexões de uma garçonete, sobre
a base de suas experiências, esclarecem esse ponto:
É o tipo da coisa, é
você agradar ele... As mulheres dos países deles não
são dependentes, tem o dinheiro delas, carro, liberdade,
não precisam de um homem para ir a um bar. Brasileira, não,
brasileira precisa. Eles gostam disso, e elas, as brasileiras, gostam
que eles tomem conta. Delas olhar algo e dizer, que bonito e eles
comprarem para elas. Eles gostam dessa dependência e elas
gostam do jeito deles.
E as idéias sobre o temperamento nativo são incorporadas
na intensa carga de sensualidade atribuída pelas entrevistadas
às feminilidades locais. “Somos mais caldas”,
afirma uma delas. As entrevistadas reiteram a idéia de que
a sensualidade, marca o temperamento das nativas. Ela é percebida
por essas garotas como o aspecto que as singulariza e torna-se o
elemento central através do qual elas tentam garantir o sucesso
e permanência desses namoros, negociando, inclusive seu posicionamento
nesses relacionamentos.
Nas inter-relações entre categorias de diferenciação
permeando as práticas envolvidas no “turismo sexual
de classe média”, gênero e nacionalidade tornam-se,
assim, indissociáveis. E essas imbricações
expressam-se por meio da “cor” corporificada por estrangeiros
e nativas: as relações estabelecidas através
da “cor” completam os procedimentos de valorização
dos estilos de masculinidade atribuídos a certas nacionalidades
e de sexualização das nativas.
“Cor”, estetização,
racialização
Pode parecer paradoxal que me refira à cor, aludindo a visitantes
(e residentes) de países do Norte. E, mais ainda, que numa
pesquisa centrada em Fortaleza, aluda à noção
de “racialização”. Isto porque, quando
se fala em “cor”, nem sempre a “brancura”
é levada em conta. Por outro lado, entre as capitais do Nordeste
vinculadas ao turismo sexual internacional no Brasil, essa cidade
está situada no estado que, segundo o Censo realizado pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, apresenta
a menor taxa de população negra. (7)
Explicar a utilização desse termo exige pensar tanto
nas noções de “brancura” e “racialização”
como na maneira que a “cor” opera no marco das relações
transnacionais em Fortaleza.
Falo em brancura, referindo-me a algo que vai além da cor
da pele, seguindo o pensamento de Bell Hooks (1990),
autora que contesta abertamente a vinculação exclusiva
da raça ao Outro não branco. Trata-se de considerar
a brancura como conceito subjacente ao racismo, à colonização
e ao imperialismo cultural.
No que se refere à “racialização”,
essa noção, utilizada no início da década
de 1960 por Fanon (1979), tem sido recriada
no marco das discussões contemporâneas sobre os contatos
transnacionais e multiculturais associados à globalização.
Entre essas perspectivas, contam-se as abordagens feministas que,
interessadas em compreender a imbricação entre gênero
e outras categorias de diferenciação, conferem um
lugar destacado à "raça”. E se o conceito
de “raça” tem um estatuto ambíguo nas
correntes antropológicas (Fry 95-96, Cowlishaw
2000) nas abordagens feministas que o adotam, nem sempre o conteúdo
dessa categoria resulta claramente delineado (Anthias
e Yuval Davis 1993) nem há, sequer, acordo, sobre o estatuto
conceitual dessa categoria (Moore 1994, Haraway
1991, Stolcke 1993). Entre essas linhas
de pensamento há, entretanto, convergências no que
se refere à pensar em racialização para aludir
ao modo complexo de operação das desigualdades através
do qual se excluem grupos corporalmente marcados. Mas, do meu ponto
de vista, cor e racialização também estão
presentes na superioridade concedida a certos grupos nesses processos
de exclusão.
Quando digo que a “cor”, indissociavelmente ligada
à nacionalidade, é vinculada às masculinidades
mais valorizadas, refiro-me à invariável marca da
“brancura” na corporificação dessas maneiras
de ser homem. Em procedimentos nos quais o temperamento marca o
corpo, que é apreciado através de critérios
estéticos, os traços distintivos das masculinidades
mais apreciadas são sempre associadas a uma beleza contrastante
com a feiúra atribuída aos locais. E penso em critérios
estéticos como julgamentos de beleza e gosto (Overing
1996), indissociáveis de um processo de educação
dos sentidos no qual as qualidades são incorporadas em sistemas
de significado através dos quais se avaliam as propriedades
das coisas (Morphy 1996). Nas palavras das
entrevistadas:
Os homens aqui, a maioria, são
mais baixos, a cabeça, assim, o formato da cabeça
é mais arredondado, barrigudos, relaxados...
O homem [pobre] no Ceará é
feio que dói. Feio, cabeça grande, achatada, tem um
[aspecto] cinzento porque o sol é muito intenso, a ignorância
é muito grande.
A estetização envolvendo os homens “de fora”
não obedece a padrões corporais fixados com precisão.
A beleza alocada aos estrangeiros sintetiza atributos corporificados
por homens jovens ou não tão jovens, carecas ou com
cabelo. Essa beleza, exprimindo critérios implementados na
hierarquização das masculinidades, está associada
à brancura, que se expressa em traços fenotípicos:
na cor da pele, do cabelo, dos olhos. Mas, essa estetização,
vinculada aos europeus e remetendo à localização,
envolve aspectos que vão além desses traços.
De maneira análoga, a leitura das feminilidades nativas
realizada por esses estrangeiros é marcada pela “cor”.
Uma cor, aliás, “morena”, contraposta à
brancura vinculada aos/às habitantes da Europa, sintetiza
a imbricação de diferenciações corporificada
nas mulheres locais. Na visão desses visitantes, incluindo
alguns latino-americanos, a cor morena é intimamente ligada
ao Brasil e é associada à “melhor mulher”,
a mais “fogosa”. Nas palavras de um argentino à
procura de sexo:
Las morenitas son más fogosas.
Quieren más veces, tienen otra movilidad en la cama, se prestan,
por ahí, para otras posiciones, hablando mal y pronto, el
culo. La mujer argentina, no lo encara de esa manera.
Ao falarem nas morenas, os estrangeiros utilizam a cor, muitas
vezes, em termos descritivos: elas têm uma pele que não
é branca, nem negra. Nesses termos, nos quais ser morena
remete a uma determinada tonalidade, ser queimada pelo sol não
basta. Diferentemente do que parece acontecer em outros contextos
de turismo sexual no Brasil, em Salvador e no Recife, nos quais
os turistas estrangeiros procuram morenas e negras (Carpazoo
1994, Dias Filho 1998), em Fortaleza, as
“negras/negras” são rejeitadas por estrangeiros
de diversas nacionalidades. Nas palavras de um turista português
à procura de sexo,
Gosto das brasileiras, mas das brasileiras
morenas, até das mulatas, das negras nunca, sou um pouco
racista.
Kempadoo (2000) chama a atenção
para as maneiras como o exotismo está presente nos processos
contemporâneos que, ligados a movimentos econômicos
e culturais globalizantes, perpassam procedimentos de dominação
e exploração. Segundo a autora, essa forma diferenciada
de racismo, alimentando a ilusão de admiração
e atração pelo Outro, não deixa de inferiorizar
a Alteridade. As percepções dos estrangeiros à
procura de sexo, em Fortaleza, coincidem em subordinar, através
do consumo, a sexualidade nacional. O exótico, delineado
na intersecção entre “cor” e sexualidade
participa nesse jogo de subordinação. Mas esses estrangeiros
estabelecem através da cor, limites nos espaços de
exotismo nos quais estão dispostos a transitar.
Entre esses entrevistados a cor é utilizada, também,
em termos categóricos, isto é, em termos que, mais
do que descrever, possuindo autonomia em relação aos
sinais corporais, remetem a uma classificação (Kofes
1976). Nesses termos, as nativas, para além de tonalidades
específicas e numa classificação que, atravessando
diferentes classes sociais, sexualiza mulheres vinculadas ou não
à prostituição, são consideradas “morenas”,
corporificando a intensa carga de sensualidade associada a essa
cor. E as ambivalências atravessando a apreciação
dessa cor mantêm relações com os procedimentos
de estetização que, associados às feminilidades,
situam numa posição relativamente inferior a “beleza”
atribuída às brasileiras. Este procedimento é
recorrente entre entrevistados de diversas. Visitantes italianos,
encantados com a sensualidade das cearenses, expressam abertamente
a superioridade de suas conterrâneas. Um turista dessa nacionalidade
me explica:
Le italiane sono piú bele,
má, non para mim. Gosto delas. É elas que non gostam
de mim...
Entrevistados argentinos, apesar de localizados, do mesmo modo
que o Brasil, no Sul, manifestam percepções análogas:
Son más gustosas las brasileras.
Yo creo que si la mujer argentina fuera como la brasilera sería
la mejor mujer del mundo. Porque las argentinas son más lindas...
A estetização, sintetizando as valorizações
permeando esse universo, espelha as relações desiguais
nele presentes. A beleza associada à brancura e intimamente
vinculada à localização marca os estilos de
masculinidade mais valorizados que se corporificam em estrangeiros
das nacionalidades mais apreciadas. E, ao contrário, a estetização
expressa o lugar subordinado atribuído às brasileiras.
Nesse contexto, a sexualização/racialização
das nativas não é operacionalizada exclusivamente
pelos estrangeiros. Ela é implementada, também, pelos
locais. Entretanto, enquanto na perspectiva dos visitantes internacionais
esse procedimento, perpassado por ambivalências, marca todas
as brasileiras, na perspectiva dos locais, ele afeta as nativas
consideradas mais escuras e àquelas de todas as tonalidades
que, acompanhando estrangeiros, são automaticamente percebidas
como prostitutas.
Conclusão
Nesse universo, as concepções e práticas associadas
à sexualidade adquirem sentido no marco de hierarquizações
estreitamente vinculadas à localização estrutural
das nacionalidades em jogo. A análise realizada mostra que,
nesse contexto, a crucial importância da localização
relativiza a relevância da classe. E, nesse marco, gênero
e raça “agem” como operadores metafóricos
do poder econômico e cultural inerente a essas relações
transnacionais. Essas duas categorias têm parte ativa nas
conceitualizações através das quais são
inferiorizadas/os as/os nativas/os e privilegiados os estrangeiros.
Essas concepções se expressam através de construções
de gênero ou, alternativamente, por meio daquelas vinculadas
à “cor”. Em outras palavras, conceitualizações
criadas na intersecção entre gênero e nacionalidade
ou entre “cor” e nacionalidade são alternativamente
implementadas na sexualização e desvalorização
das nativas e na apreciação positiva dos visitantes
internacionais.
Como esse jogo de imbricações se relaciona com a
(recente) inserção do Brasil no circuito mundial de
turismo sexual e com o crescente privilégio concedido por
viajantes à procura de sexo a essa região? De acordo
com estudos sobre turismo sexual, nas décadas de 1950 e 1960
as mulheres no Sudeste da Ásia e na Ásia oriental
representaram o ideal de mercadoria erótica pela promiscuidade
e passividade (Mullings 1999). Essas regiões
teriam chegado a ponto de saturação na medida em que
a impressionante afluência de viajantes tornou essas paisagens
sexuais menos autênticas, menos reais e, portanto, menos desejáveis.
Levando em conta essas reflexões, é possível
afirmar que, na demanda por experiências de viagem com um
“valor” mais elevado no mercado internacional do sexo,
o Nordeste do Brasil surge como novo destino marcado por uma singular
combinação entre uma suposta autenticidade, a atribuição
de uma imensa disposição para o sexo sintetizada na
cor atribuída às nativas e uma submissão, distante
da passividade associada às asiáticas, percebida como
alegre e “ativa”.
No que se refere ao privilégio concedido pelas mulheres
nativas que se engajam nestes relacionamentos aos estrangeiros,
é importante observar que as concepções acionadas
no universo contemplado, remetendo à supremacia masculina
e branca, devem ser vinculadas à maneira como os padrões
de gênero locais, imbricando-se com barreiras de classe e
raciais, incidem em suas oportunidades laborais e de obtenção
de renda e no posicionamento nos relacionamentos com os homens “da
terra”. As garotas realizam negociações com
esses estrangeiros no marco de relacionamentos que, no plano “global”,
são extremamente desiguais. No entanto, vale observar não
apenas que o poder flutua no âmbito das relações
micro-sociais, mas também que alguns aspectos desses relacionamentos
mostram as conseqüências positivas que eles podem ter
no plano local. Eles permitem a algumas garotas ampliar esferas
de decisão e influência, em termos de uma realidade
(local) na qual gênero e classe se entrelaçam, tecendo
as redes de desigualdade que as afetam.
Nas experiências das jovens de camadas baixas que “namoram”
estrangeiros, a imersão nos relacionamentos transnacionais
resulta num alargamento dos seus mundos, percebido como transposição
de fronteiras. Tendo como referência as trajetórias
dessas jovens, esse alargamento não pode ser desvinculado
da ampliação de suas esferas de poder. E gênero
atravessa esse processo, que está intimamente vinculado à
ampliação dos repertórios de feminilidade acessíveis
às garotas de camadas baixas e médias baixas. À
docilidade, “simplicidade” e dependência a elas
conferidas contrapõem-se a iniciativa, autonomia e racionalidade
que, em termos locais, se integram em (novos) estilos de ser mulher.
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